sexta-feira, 1 de setembro de 2017

SOBBREVIVER 10 ANOS!

No dia 01 de Abril de 2016, o projeto do filme SOBBREVIVER completou 10 anos de lançamento. Naquela exata data, fizemos a pré-estreia do filme na cidade de Curitiba (PR) numa exibição somente para amigos e familiares.

Mas antes de contar algumas histórias e situações sobre a produção do filme, é necessário, principalmente para os nascidos após o ano 2000, dar uma noção de como funcionava o acesso à informação sobre o nosso esporte nas décadas anteriores ao surgimento da internet e também de onde surgiu a ideia desse projeto.

Nasci em 1980 e morei por muitos anos numa cidade que não tem praia, longe do mar e das ondas, mas desde muito novo tive o privilégio de passar as férias escolares na praia com meus primos e avós. Meu contato com o mar começou naquela época e foi crescendo a cada nova temporada que passávamos na nossa casa, numa pequena e até então pacata cidade no litoral norte de Santa Catarina.
Final dos anos 90 em Barra Velha / SC. ft.: arquivo pessoal.

Foram muitos anos na companhia dos meus primos e amigos da cidade, sempre passando mais tempo dentro d’água do que fora dela. No final da década de 80, eu já tinha passado pelas pranchinhas de isopor e pegava as primeiras ondas com minha moreyboogie 139, enquanto meus primos surfavam com suas clássicas Mach7-7.

Em meados da década de 90, eu trabalhava no estacionamento que meus pais tinham em Curitiba. Em um quarto nos fundos do terreno eu e meus amigos do bairro montamos uma oficina para conserto de pranchas de surf, trabalho que mantinha nossas idas para praia nos fim de semana. Nessa época nenhum dos meus amigos pegava ondas de bodyboard e minhas referências de ondas vinham das revistas e vídeos de surfe, que de vez em nunca mostravam uma foto do Mike Stewart, do Guilherme Tâmega ou uma onda ou outra do Paul Roach nos vídeos do Taylor Steele.

Eu não tinha conhecimento sobre o que acontecia no resto do Brasil, os grandes nomes do esporte ou os grandes campeonatos com estruturas gigantescas nas praias do Rio de Janeiro. Eu simplesmente gostava de ir pra praia e pegar ondas.
David Pimentel e Gilson Bruch no litoral norte catarinense no final dos anos 90. ft.: arquivo pessoal.
Ainda nessa época, fortaleci uma grande amizade no colégio e durante alguns anos fomos praticamente todos os finais pra casa da família desse meu amigo,na mesma praia onde comecei a pegar ondas. Comecei então a fazer contato com outros bodyboarders da região, iniciando a troca de informações sobre equipamentos, manobras e o que envolvia nosso esporte.

Foi quando, no final da década de 90, chegou em minhas mãos um exemplar da revista gringa BODYBOARDING. Eu praticamente decorei a revista, a sequência das matérias, foto por foto, até as legendas. Nomes que nunca tinha ouvido falar, manobras que eu nem sabia que existiam, lugares no mundo com ondas perfeitas. Mudou minha vida. Pra melhor. Aquilo só aumentou minha vontade de pegar ondas.

Pelo que eu sabia tinha apenas uma banca de revista que recebia a revista na minha cidade. Um exemplar por mês, em dólar. Guardava um pouco do que eu ganhava e ia toda semana à banca perguntar se ela já tinha chegado. Desse modo consegui comprar alguns exemplares que guardo até hoje.
Revistas Bodyboarding. ft.: arquivo pessoal.
No final dos anos 90 e início dos anos 2000 comecei a viajar para conhecer outros picos, sem saber nenhuma previsão de ondas, íamos acampar na Ilha do Mel (PR) e em Florianópolis (SC). Com meus amigos do colégio e depois da faculdade conheci também o Farol de Santa Marta (SC) e Torres (RS). Pegamos algumas ondas em condições perfeitas.
Logo cedo esse era o visual de cima do morro. Floripa / SC. ft.: arquivo pessoal.

Viagens e acampamentos eram feitos sem base em previsão das ondas. ft.: arquivo pessoal.

E algumas vezes fomos recompensados com condições épicas. ft.: arquivo pessoal.
Nesse período conheci a revista nacional Style, o que me levou a um site especializado que além de acessórios vendia também vídeos de bodyboarding em formato VHS. Numa época em que a internet dava seus primeiros passos eu guardava um pouco mais de dinheiro, fazia o depósito e esperava ansiosamente a fita chegar em minha casa.
Revistas Bodyboarding Style. ft.: arquivo pessoal.

Alguns dos videos que foram assistidos “até gastar”. ft.: arquivo pessoal.

Em 2002,finalizei meu curso da faculdade de Design / Projeto de Produto com um projeto envolvendo pranchas de bodyboarding. Foi ali que me dediquei totalmente a conhecer e entender tudo o que envolvia o nosso esporte. Conheci o Charles da Spiner, com quem fiz o curso de shaper em Santos. Finalizei meu projeto com a nota 9,6 a terceira melhor da turma. Adquiri ainda mais informações sobre o esporte, desde os precursores até os grandes ídolos da época, passando também por materiais e fabricação de pranchas. 
Durante curso de shaper na Spiner. Santos / SP. ft.: arquivo pessoal.
Logo na sequência, no ano de 2003, comecei a trabalhar numa emissora de TV local de Curitiba e me envolvi com produção, filmagem e edição de vídeos. Época em que trabalhávamos com as câmeras SUPER8 e após um tempo com as digitais miniDV. Nesse mesmo ano, eu e três amigos conseguimos um espaço no Canal Comunitário e na TV Universitária e começamos a produzir um programa semanal com uma hora de duração. O programa RESISTÊNCIA apresentava esportes radicais, na região de Curitiba e litoral, com entrevistas, cobertura de eventos e tudo o que acontecia envolvendo o estilo de vida de quem pratica ou gosta de esportes radicais.


Foi quando conheci um lado muito legal do esporte, as competições. Até então eu não tinha o menor interesse, somente continuava a viajar e pegar minhas ondas nos finais de semana. Certa vez, recebemos o convite da Federação Paranaense de Bodyboard (FPB), através do então presidente Stéfano Triska, para acompanhar o ônibus da delegação paranaense que iria participar de uma etapa do circuito brasileiro em Rio Das Ostras (RJ) e fazer a cobertura da viagem em vídeo para uma matéria no programa.
Junto com os atletas do Paraná estavam alguns de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Pude presenciar uma festa do bodyboarding brasileiro, com grandes nomes de todo Brasil, o que ampliou muito a minha visão do esporte. Durante a viagem conheci e iniciei uma amizade com Sanderson Trevisan, um dos maiores nomes de todos os tempos do esporte no estado do Paraná.
Considero Sanderson como um dos idealizadores do projeto, pois foi logo após essa viagem que fortalecemos nosso contato e durante algumas conversas ele me contou sobre a vez que foi participar de uma etapa do circuito Brasileiro em Pernambuco. Viajou de ônibus do sul do Brasil, passando por diversos estados, dormindo na casa de outros atletas, conhecendo novas ondas, a cultura e costumes de cada região do Brasil. Ali surgia a ideia do nosso documentário.
Após essa viagem para Rio das Ostras surgiram também outros convites por parte da FPB, numa época em que estavam acontecendo vários eventos no estado e também o circuito Sul Brasileiro de Bodyboarding.
Fizemos a cobertura das três etapas, que ocorreram nos estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Isso acabou rendendo bons contatos, novas imagens para o projeto, o que possibilitou a produção de um primeiro Preview e também um vídeo do circuito Sul Brasileiro de 2003.
Durante a última etapa do circuito, realizada na praia brava de Itajaí (SC), conheci muitas pessoas que vieram a fortalecer o projeto, entre elas Elmo Ramos, dono e editor chefe da revista Ride It!.
Numa conversa durante o evento, disse já conhecer sobre o projeto, que até então tinha imagens captadas apenas nos estados do sul do Brasil. Foi ai que surgiu a proposta de unirmos as forças e ampliar as fronteiras do filme, incluindo os estados do sudeste, nordeste e norte do país.
A idéia era excelente, mas como viajar o extenso litoral do Brasil sem nenhuma verba? Continuei com esse sonho, e com alguns bons contatos demos continuidade às filmagens, com alguns dias clássicos em picos nos estados do Paraná e Santa Catarina.
Revistas Ride It! ft.: arquivo pessoal.
Continuei trabalhando por alguns anos em parceria com a FPB, onde também pude participar de algumas etapas como competidor sendo que no ano de 2005 fui campeão da categoria Dropknee. Também tive a oportunidade de participar de um curso de árbitros, e em etapas do circuito paranaense julguei algumas baterias.
Outros pontos marcantes que também aconteceram nessa época: a construção da nossa primeira caixa estanque, que com certeza foi um grande diferencial no projeto do filme, o contato com o pessoal da Blackstar em São Paulo e o momento que assisti ao vídeo Mutação Q!. Não acreditei que aquilo estava acontecendo no Brasil. Ondas e manobras bizarras, um material excelente e muito bem editado.
Caixa estanque “homemade” responsável pela maioria das imagens de dentro d’água no primeiro filme.
ft.: arquivo pessoal.
Graças a esses contatos tive a oportunidade de fazer minha primeira viagem para o litoral do Sudeste. Nesse momento o projeto começou a tomar forma, agora com imagens captadas também em São Paulo e Rio de Janeiro, com Maresias quebrando grande e as primeiras imagens em São Conrado, quebrando tubular.
Foi nesse momento que realmente veio o entendimento que a ideia do filme era sobre a vida dos bodyboarders. Sobre a vida, sobre viver. Sobre viver Bodyboarding. SOBBREVIVER.
E então um Teaser promocional e outro Preview foram lançados apresentando o projeto com o nome.
Acompanhe o desenrolar dessa história nas próximas postagens aqui, nas redes sociais
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Por David Pimentel (Resistência Filmes / Burn´s)


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